Roda de conversa

               A adolescência é uma fase da vida geralmente associada a mudanças comportamentais e desenvolvimento expressivo da personalidade, incluindo valores morais, ganho de autonomia e maturação orgânica (desenvolvimento rápido do corpo e de suas características, como voz, tamanho, estrutura óssea, disposição hormonal, etc). Ou seja, é a fase entre a infância e a juventude adulta, o que também abrange as escolhas que permeiam esse espaço de tempo e suas reivindicações, como a famosa “crise do adolescente” (rebeldia e oscilação entre atitudes maduras e imaturas).

                No intuito de proteger o adolescente dos riscos que cercam a ingenuidade ainda não superada deste seu momento de vida, pais e educadores devem manter sempre um diálogo aberto e eficaz com os mesmos sobre qualquer assunto, partindo de atitudes como empatia (colocando-se em seu lugar), aceitação (sem preconceitos ou discriminação) e parceria. O objetivo em dialogar é criar e fortalecer um vínculo de confiança, através do qual o adolescente possa se abrir e expressar suas emoções, seus sentimentos e conflitos ideológicos e existenciais. Assim poderemos fornecer a eles as informações e ferramentas necessárias para o melhor desenvolvimento possível.

                Um dos assuntos debatidos em rodas de conversa no Centro Educacional Margarida (CEM) é a atual tendência, principalmente entre muitas adolescentes, de enviar fotos intimas (popularmente chamado de “nudes” – da palavra inglesa nudez) para seus namorados, ou até mesmo em grupos, via aplicativos (como o Whatsapp e similares) ou redes sociais (grupos privados nas plataformas mais comuns). Na maioria dos casos os adolescentes que compartilham imagens e vídeos íntimos não conhecem, ou apenas vagamente, os riscos envolvidos nesse tramite, apesar de ser uma prática altamente perigosa. A velocidade com a qual a imagem viaja na rede pode fazer com que ela seja usada em sites pornográficos e de prostituição em poucos segundos, por pessoas inescrupulosas que, aliás, também são usuárias de grupos através de perfis e informações falsas. Pedófilos, sequestradores, psicopatas e tantos outros tipos de pessoas estão infiltrados em grupos dessa natureza. Devemos sempre orientar aos adolescentes a não confiarem em amizades exclusivamente virtuais que venham a solicitar o uso de suas câmeras para exibição de quaisquer intimidade (seus corpos, rostos, quarto, casa, etc). Quanto menos informações pessoais disponibilizarmos em nossas redes sociais mais precavidos estaremos contra crimes cibernéticos. Aplicativos como o Whatsapp possuem servidores que armazenam as conversas e seus conteúdos, incluindo imagens, áudios e vídeos. Então evitar o envio de conteúdo intimo, mesmo que seja para algum conhecido, é a melhor forma de resguardar a si mesmo durante o uso do ciberespaço.

O principal motivador desse tipo de exposição é sua influência na autoestima em construção, como sentir-se desejada, bonita e atrair olhares. Apesar disso ser uma mera vaidade, o dialogo entre pais e filhos deve contemplar a mudança da imagem corpórea durante essa fase, incluindo efeitos hormonais que se manifestam na mesma. Elogiar os filhos, explicar que o corpo está sofrendo mudanças mas que logo ele estará definido para a juventude e tratar com naturalidade as inseguranças de suas “crises” é algo muito positivo para o adolescente. Devemos reforçar na mente deles que sua beleza não depende de elogios e que não lhes cabe qualquer vulgaridade para obtê-los.

 

                O consumo de álcool na adolescência também foi tema de nossa Roda de Conversa no Centro Educacional Margarida (CEM). Apesar de ser uma categoria de produto comercializado licitamente em nosso país, o consumo excessivo e desprovido de cuidados de bebidas alcoólicas é um grave problema entre adolescentes, geralmente culminando em coma alcoólico, acidentes de trânsito e abertura para consumo de outras drogas.

“De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2016, 55% dos alunos do 9º ano, entre 13 e 14 anos, já experimentaram bebida alcoólica. A pesquisa também revela que a proporção dos jovens que já experimentaram drogas ilícitas subiu de 230,2 mil para 236,8 mil. E que 21,4% já sofreram algum episódio de embriaguez na vida”.

O consumo de álcool acaba sendo uma porta de entrada para outras drogas e sua adicção (vício) é sutil. Muitas das vezes, o uso passivo e “social” do álcool, camufla os indícios da dependência alcoólica. Dentre os relatos de dependentes químicos crônicos, antes das drogas ilícitas (cocaína, crack, maconha e sintéticas), o uso do álcool fora iniciado aproximadamente entre os 10 e 14 anos de idade, na maioria das vezes incentivado dentro de casa, tornando-se posteriormente o “gatilho” (termo técnico para o agente que desperta o consumo) para as drogas ilícitas (principalmente a cocaína).

Em festas de jovens com consumo de álcool, baladas e etc., há sempre o risco do sofrimento de danos quando sob efeito da substância, em estado alterado de consciência (Ex. boa noite cinderela, abusos sexuais, furtos, etc.).

                Estatisticamente, sob efeito do álcool, o humor tende a alcançar extremos (depressão ou euforia), incluindo a suspensão dos critérios de juízo de valor, o que acarreta em comportamento agressivo ou melancólico incluindo crises de choro, bem como deixa a pessoa alcoolizada mais invasiva no trato com as demais pessoas.

                Infelizmente não existe um tratamento medicamentoso que cure os casos crônicos de consumo abusivo de álcool e outras drogas. Uma vez desenvolvida a adicção crônica, a pessoa terá uma luta permanente e diária para evitar o consumo e seus efeitos.

                Algumas famílias tem a tradição de ensinar seus filhos, geralmente do sexo masculino, a consumir socialmente bebidas alcoólicas. Mas cabe aos responsáveis transmitir com clareza o respeito devido ao consumo de algo cujo potencial destrutivo é muito alto. Moderação e degustação, em lugar de embriaguez e alienação. Para saber mais sobre o assunto sugiro aos pais de adolescentes e jovens que façam uma visita com eles nos locais de tratamento para dependência química, como comunidades terapêuticas, CAPS, Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA), além de buscarem leituras técnicas confiáveis sobre o assunto.

 

Concluindo, cabe lembrarmos que a melhor forma de evitar problemas tanto na exposição de imagens intimas como no que tange ao consumo de álcool é a prevenção. Ou seja, abstenhamo-nos daquilo que nos oferece riscos e abracemos o que for melhor para cada um de nós e de nossa família.

 

Psicólogo Fabio Belas.